(História contada em 10 narrativas )
NARRATIVA 2
SINOPSE [alternativa]
Leitor, você já se imaginou voltando no tempo, aportando nos arredores e depois no centro da Revolução Francesa de 1789? “Armaria, nan!” – retruca você! Pois saiba, leitor São Tomé, que você pode fazer essa viagem sem se preocupar em ser ferido ou morto. É só seguir o narrador desta jornada intensa, eivada por sonhos, interesses escusos, poder, guilhotina e sangue.
INÍCIO
Algum lugar
da França, proximidades de 1789
Prezados leitores,
Estou de volta
à França Revolucionária. Desta vez vim sozinho. Resolvi não trazer a garotada
estudante porque fizeram muita algazarra pelas ruas de Paris. Por mais que eu
pedisse silêncio, explicasse o motivo; por mais que a maioria entendesse as
razões de passar em silêncio por aquelas ruas hostis, sempre tem um que não se
aguenta diante daquilo tudo. E eu não tiro a razão. Vocês não imaginam, caros,
o que é o cenário turbulento do centro da capital parisiense. Em todo canto, não
se fala em outra coisa. A revolução escorre nas veias ingênuas da classe
plebeia pobre que será feita de massa de manobra da classe plebeia rica
(burguesia).
[Parêntese] Inclusive abro um parêntese grandão aqui para
me desculpar com dois alunos: Arthur e Bernardo. Arthur queria trazer de
lembrança um tijolo da Bastilha; um exemplar do jornal Les Révolutions de
France et de Brabant", de Camille Desmoulins, um peixe das destemidas
vendedoras de Paris, enfim, qualquer coisa importante daquele momento histórico,
a fim de presentear sua mãe historiadora. Como não sei ainda o impacto
no presente de se trazer coisas do passado ao futuro, não permiti. Bernardo,
por sua vez, queria, porque queria, entrar no Palácio das Tulherias para
conversar com o rei Luís XVI. Entregar a ele o fiasco que seria a fuga da
família real; explicar que, em junho de 1791, seriam pegos na cidade de
Varennes. Argumentei com Bernardo que era impossível entrar nas Tulherias onde
a família real estava compulsoriamente residindo. Ambos ficaram chateados.
Cantando, como no filme “O Fantasma da Ópera'', disseram que eu, na condição de
narrador, era o “Chefe Supremo” das
Forças Armadas, aliás, dos acontecimentos. Que ali eu tinha o poder de um rei
absolutista francês. Como a razão iluminista estava com eles, dei uma de doido,
tentei esclarecer o inesclarecível, mas não os convenci de nada. Disse-lhes que
estavam certos, mas pedi que entendessem meu lado. A narração tinha de seguir
um rumo e, por motivos que nem a vã filosofia explica, tinha escolhido aquele.
Enfim, como são sempre muito gentis e
educados, mesmo um pouco desapontados, eles aceitaram minha falação fajuta,
como se dissessem: MANDA QUEM NARRA, OBEDECE QUEM É PERSONAGEM.
[Continuação]
O problema, caros, é que nem a milenar monarquia absolutista (assentada sobre
clero e nobreza) nem a burguesia sedenta
são santos. É cada um querendo garantir o seu. Acredito que os únicos crentes
de verdade numa vida melhor pós-revolução eram os pobres. Aqueles que, sem
lenço e sem documento, serão usados pela burguesia no alcance de seus
objetivos.
Mas vamos
parar de transformar a narrativa num emaranhado de concepções teóricas. Conte o
que está vendo narrador! Pois bem, estou aqui na pré-revolução, ou seja, alguns
anos antes do fatídico 1789. Como não
falo francês, carrego um controle remoto na mão para ouvir as conversas
dubladas. Às vezes, quando a dublagem fica ruim, difícil de ouvir devido ao
intenso barulho das ruas, ligo a legenda. O mundo da ficção é bom por isso, não
é, leitores? A gente inventa cada coisa sem
pé nem cabeça e se a verossimilhança colar, colou.
Ai, meu São
Luís IX, rei francês morto durante uma cruzada e beatificado pela Igreja
Católica, rezo eu diante da praça Luís XV que em breve será chamada “Praça da
Revolução”. É ali que, em breve, em 21 de janeiro de 1793, o rei da França Luís
XVI será decapitado. Mas minha rápida oração, tão demagógica quanto o papel da
Igreja que apoia por mais de mil anos os mandos e desmandos da monarquia francesa, não será ouvida. Não interferirei no curso da
História. Estou aqui como mero expectador: assistirei os fatos de perto para
narrá-los a vocês.
Um leitor da narrativa anterior, aquela em que estive aqui com alunos dos oitavos e nonos anos da escola Padre Pedro Serrão (vide link), me pede insistentemente, via Instagram, que me vista de uma espécie de personagem do filme “Exterminador do Futuro”, o qual volta ao passado para mudar as catástrofes que ocorrerão vários anos depois. Sei lá, leitor insistente. Você por acaso assistiu à série da Netflix denominada“Outlander”? Se sim, viste que não há como alterar as sucessões dos acontecimentos. E, se se levar em consideração o que ocorre em “Dark”, pode-se perceber que mudanças em situações do passado modificam o futuro a ponto de, inclusive, impedir o seu nascimento e o meu. Nan, leitor sonhador! Vou mexer nisso não. Serei um mero expectador e olhe lá. Pois, se isso não fosse uma história de ficção, certamente eu não sobreviveria naquele cenário. Primeiro porque ficaria perceptível a todos que sou um forasteiro, ou seja, meu francês de tradutor do Google, poderia me levar a ser confundido com um espião do Sacro Império Romano (formado à época pelo que corresponde hoje à Alemanha, Áustria, Bélgica, Holanda, Luxemburgo, República Checa, República Eslovaca, Eslovênia,porção leste da França, parte norte da Itália e oeste da Polônia). Mas, como estamos num relato ficcional, vou ligar o modo “Chicó”, o famoso “Não sei, só sei que foi assim” e tocar o barco pra frente. Afinal, em “Outlander”, usaram uma pedra para transportar a personagem Claire Fraser 200 anos ao passado. Em “Dark” o passe de mágica ocorre em uma caverna. E ninguém questiona a loucura disso tudo. Penso, portanto, que aqui também posso inventar algumas tagarelices e estas ficarão à margem das opiniões pesadas de algum leitor cri cri.
CONTINUA…

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