sábado, 14 de maio de 2022

DE VOLTA À FRANÇA REVOLUCIONÁRIA (Por Manoel Belisario)

 

(História contada em 10 narrativas  )

NARRATIVA 2 

SINOPSE [alternativa]

 Leitor, você já se imaginou voltando no tempo, aportando nos arredores e depois no centro da Revolução Francesa de 1789? “Armaria, nan!” – retruca você! Pois saiba, leitor São Tomé, que você pode fazer essa viagem sem se preocupar em ser ferido ou morto. É só seguir o narrador desta jornada intensa, eivada por sonhos, interesses escusos, poder, guilhotina e sangue. 

INÍCIO

           Algum lugar da França, proximidades de 1789

           Prezados leitores,

Estou de volta à França Revolucionária. Desta vez vim sozinho. Resolvi não trazer a garotada estudante porque fizeram muita algazarra pelas ruas de Paris. Por mais que eu pedisse silêncio, explicasse o motivo; por mais que a maioria entendesse as razões de passar em silêncio por aquelas ruas hostis, sempre tem um que não se aguenta diante daquilo tudo. E eu não tiro a razão. Vocês não imaginam, caros, o que é o cenário turbulento do centro da capital parisiense. Em todo canto, não se fala em outra coisa. A revolução escorre nas veias ingênuas da classe plebeia pobre que será feita de massa de manobra da classe plebeia rica (burguesia).

[Parêntese]  Inclusive abro um parêntese grandão aqui para me desculpar com dois alunos: Arthur e Bernardo. Arthur queria trazer de lembrança um tijolo da Bastilha; um exemplar do jornal  Les Révolutions de France et de Brabant", de Camille Desmoulins, um peixe das destemidas vendedoras de Paris, enfim, qualquer coisa importante daquele momento histórico, a fim de presentear sua mãe historiadora. Como não sei ainda o impacto no presente de se trazer coisas do passado ao futuro, não permiti. Bernardo, por sua vez, queria, porque queria, entrar no Palácio das Tulherias para conversar com o rei Luís XVI. Entregar a ele o fiasco que seria a fuga da família real; explicar que, em junho de 1791, seriam pegos na cidade de Varennes. Argumentei com Bernardo que era impossível entrar nas Tulherias onde a família real estava compulsoriamente residindo. Ambos ficaram chateados. Cantando, como no filme “O Fantasma da Ópera'', disseram que eu, na condição de narrador, era o “Chefe Supremo”  das Forças Armadas, aliás, dos acontecimentos. Que ali eu tinha o poder de um rei absolutista francês. Como a razão iluminista estava com eles, dei uma de doido, tentei esclarecer o inesclarecível, mas não os convenci de nada. Disse-lhes que estavam certos, mas pedi que entendessem meu lado. A narração tinha de seguir um rumo e, por motivos que nem a vã filosofia explica, tinha escolhido aquele. Enfim,  como são sempre muito gentis e educados, mesmo um pouco desapontados, eles aceitaram minha falação fajuta, como se dissessem: MANDA QUEM NARRA, OBEDECE QUEM É PERSONAGEM.

[Continuação] O problema, caros, é que nem a milenar monarquia absolutista (assentada sobre clero e nobreza)  nem a burguesia sedenta são santos. É cada um querendo garantir o seu. Acredito que os únicos crentes de verdade numa vida melhor pós-revolução eram os pobres. Aqueles que, sem lenço e sem documento, serão usados pela burguesia no alcance de seus objetivos.

Mas vamos parar de transformar a narrativa num emaranhado de concepções teóricas. Conte o que está vendo narrador! Pois bem, estou aqui na pré-revolução, ou seja, alguns anos antes do  fatídico 1789. Como não falo francês, carrego um controle remoto na mão para ouvir as conversas dubladas. Às vezes, quando a dublagem fica ruim, difícil de ouvir devido ao intenso barulho das ruas, ligo a legenda. O mundo da ficção é bom por isso, não é, leitores? A gente inventa cada coisa sem pé nem cabeça e se a verossimilhança colar, colou.

Ai, meu São Luís IX, rei francês morto durante uma cruzada e beatificado pela Igreja Católica, rezo eu diante da praça Luís XV que em breve será chamada “Praça da Revolução”. É ali que, em breve, em 21 de janeiro de 1793, o rei da França Luís XVI será decapitado. Mas minha rápida oração, tão demagógica quanto o papel da Igreja que apoia por mais de mil anos os mandos e desmandos da  monarquia francesa,  não será ouvida. Não interferirei no curso da História. Estou aqui como mero expectador: assistirei os fatos de perto para narrá-los a vocês.

Um leitor da narrativa anterior, aquela em que estive aqui com alunos dos oitavos e nonos anos da escola Padre Pedro Serrão (vide link), me pede insistentemente, via Instagram, que me vista de uma espécie de personagem do filme “Exterminador do Futuro”, o qual volta ao passado para mudar as catástrofes que ocorrerão vários anos depois. Sei lá, leitor insistente. Você por acaso assistiu à série da Netflix denominada“Outlander”? Se sim, viste que não há como alterar as sucessões dos acontecimentos. E, se se levar em consideração o que ocorre em “Dark”, pode-se perceber que mudanças em situações do passado modificam o futuro a ponto de, inclusive, impedir o seu nascimento e o meu. Nan, leitor sonhador! Vou mexer nisso não. Serei um mero expectador e olhe lá. Pois, se isso não fosse uma história de ficção, certamente eu não sobreviveria naquele cenário. Primeiro porque ficaria perceptível a todos que sou um forasteiro, ou seja, meu francês de tradutor do Google, poderia me levar a ser confundido com um espião do Sacro Império Romano (formado à época pelo que corresponde hoje à Alemanha, Áustria, Bélgica, Holanda, Luxemburgo, República Checa, República Eslovaca, Eslovênia,porção leste da França, parte norte da Itália e oeste da Polônia). Mas,  como estamos num relato ficcional, vou ligar o modo “Chicó”, o famoso “Não sei, só sei que foi assim” e tocar o barco pra frente. Afinal, em “Outlander”, usaram uma pedra para transportar a personagem Claire Fraser 200 anos ao passado. Em “Dark” o passe de mágica ocorre em uma caverna. E ninguém questiona a loucura disso tudo. Penso, portanto, que aqui também posso inventar algumas tagarelices e estas ficarão à margem das opiniões pesadas de algum leitor cri cri.

CONTINUA…

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